CURRICULO ADAPTADO
04/03/2010 13:24
Não é novidade que o desafio da inclusão se coloca como um importante foco de ação e reflexão para nós desde os primeiros anos da escola, que vem a cada dia buscando atender a diversidade dos alunos da melhor maneira possível, considerando a função de formação e ensino que a escola cumpre na sociedade.
Um dos mais importantes instrumentos com os quais o professor pode contar para isso é o currículo, no qual encontramos as principais diretrizes do trabalho de cada série, os conteúdos, objetivos e as ações didáticas que se mostram eficientes. No entanto, nem todos os alunos respondem às intervenções
didáticas da mesma maneira. Todos eles apresentam singularidades em seus
processos de aprendizagem, e alguns requerem intervenções diferentes daquelas
que se costuma fazer para a maioria, algumas crianças nos apontarão a necessidade de fazer modificações maiores e mais significativas. É neste momento que, em uma escola que pretende ser para todos, o currículo passa a cumprir um papel ainda maior e mais importante: é a partir dele que encontramos as possibilidades de ensinar a todos os alunos, considerando as necessidades de cada um; e é ele também que nos oferecerá os parâmetros necessários para que seja possível lançar mão de ações específicas e individuais, modificando-o de forma substancial, sem deixar de preservar as principais características e objetivos da aprendizagem de cada disciplina ou de cada série.
Adaptar currículo: para quê(m)?
Como definir a adaptação curricular? Qual seu objetivo? Quando devemos
lançar mão deste recurso? A quem estamos atendendo? Talvez estas sejam
questões que mereçam especial atenção, e devam permear a maioria das nossas
decisões.
Podemos definir a adaptação curricular como um processo de análise e
transformação do currículo de uma série e/ou uma disciplina, tendo como objetivo
a definição de uma resposta educativa adequada às necessidades e possibilidades de aprendizagem de determinados alunos, para quem os ajustes e regulações utilizadas para a maioria do grupo não são suficientes. Nestes casos, podemos falar de adaptação curricular, mas é importante ressaltar aqui seu caráter extraordinário, tomando emprestadas as palavras de Rosa Blanco:
“Convém, todavia, reservar o conceito de adaptações curriculares individualizadas
para os casos em que as necessidades educativas dos alunos requerem ações,
recursos ou medidas de caráter especial ou extraordinário durante todas sua
escolaridade ou em algum momento dela”.
Convém definir também a adaptação curricular como uma tarefa que não se restringe à simples produção de um documento. Trata-se de um processo permeado de constantes revisões e avaliações, que comporta uma dinâmica de “vai e vem”, tendo sempre como referência o currículo da série em que o aluno se encontra. Este processo pode dirigir-se a apenas uma disciplina, a um determinado momento da escolaridade do aluno, a uma unidade didática, ou
repetir-se a cada uma delas, ao longo de toda a vida escolar do aluno, e estas
decisões serão tomadas sempre a partir das necessidades e possibilidades
que cada um apresenta, o que acaba por atribuir ao currículo adaptado um
caráter bastante individual.
Uma última, mas não menos importante consideração deve ser feita antes
de nos entregarmos à tarefa de adaptar um currículo: a investigação acerca da
forma como cada criança aprende deve sempre levar em conta alguns princípios da escola construtivista, sobretudo aquele que nos aponta que a aprendizagem acontece através das relações que o sujeito aprendiz consegue estabelecer entre aquilo que já sabe e conhece (ainda que de forma superficial) e os novos objetos de conhecimento que lhes são apresentados. Se este representa um dos mais importantes norteadores para a construção do currículo regular, assim deve ser também para os currículos adaptados, ou seja: podemos modificar muitas das estratégias e intervenções que costumamos utilizar, e até lançar mão de outras completamente novas, sem, porém, abrir deste importante norteador. Neste sentido, é fundamental que o professor se afaste da idéia de que “algumas crianças precisam de um método mais diretivo e menos aberto, que não as desestabilize muito para aprender”. Antes pelo contrário: além de considerar o desequilíbrio e o conflito de idéias como os verdadeiros pressupostos para a aprendizagem de todos escolar, e avaliando-os a partir de um grau de exigência quase nulo.
O currículo paralelo: quando a rigidez exclui
A opção pela adaptação curricular como uma das formas de se atender à diversidade dos alunos, porém, não é uma escolha que pode ser feita pura e simplesmente. Diferentemente do que se pode pensar, trata-se de uma escolha
que deve se basear em uma série de importantes princípios, valores e concepções
que dão forma ao projeto pedagógico da escola e constituem importantes indicadores para a construção de seu currículo regular: a crença que deposita na
possibilidade de aprender de todas as crianças e na soberania dos processos de
construção de conhecimento dos sujeitos; a forma de avaliar os alunos; a disposição dos professores para atender à diversidade que encontra em sala de
aula, a concepção de aprendizagem e de ensino, etc.... Construído a partir destes
fundamentos, um currículo poderá apresentar maior ou menor rigidez, e é exatamente esta medida que vai nos indicar a possibilidade de adaptá-lo ou não.
Um currículo rígido, detalhado, baseado principalmente em aprendizagens
conceituais (em detrimento de procedimentos e atitudes, fundamentais para a
formação dos alunos) e produzido com vistas a atender “o aluno médio”, dará ao
professor pouca ou nenhuma possibilidade de adaptação, e, ao invés disso, abrirá
espaço para a construção de um currículo paralelo, ou seja: um currículo
construído a partir de objetivos totalmente diferentes dos de seu grupo de
referência, sem nenhuma relação com o quê seus colegas aprendem, e baseado
apenas nas faltas e dificuldades apresentadas e que, por isso mesmo
desconsidera a necessidade e a importância da investigação das possibilidades
dos alunos, sem depositar nenhum tipo de expectativa positiva em seu percurso
escolar, e avaliando-os a partir de um grau de exigência quase nulo. Trata-se
de uma programação paralela que, ao contrário do que esperamos e queremos , exclui de forma definitiva alunos com seus pares, e tirando-lhes a oportunidade de compartilhar seus conhecimentos, participar de situações desafiadoras, aprender com outros, reconhecer colegas modelos, resolver conflitos, dispor-se a aprender a partir da intervenção, participar de discussões, e o mais importante: considerar-se de verdade como estudante.
GUNGA
4/2007
SAIBA MAIS
https://inforum.insite.com.br/11774/6101025.html
Cegos -
https://www.unesp.br/prograd/PDFNE2004/artigos/eixo4/ainclusaodealunosdeficientes.pdf
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